
Era de estatura mediana, muito branca, muito magra, olhos tristes (na verdade vazios, um vazio frio), cabelo comprido e liso de um castanho claro. Trabalhava como secretária em uma grande empresa. Andava sempre coma cabeça baixa, vestida como mandava o protocolo, mas sem sal, sem destaque, sem cor. Fazia tudo impecavelmente perfeito e amava o chefe. Aí como o amava! E quando ele passava ela olhava e analisava cada detalhe, cada traço, cada reação. Mas fazia isso com uma destreza que ninguém jamais perceberia essa sua paixão.
Nem mesmo o chefe que a cumprimentava e elogiava sempre. Este alias não a via tão sem sal assim. Ele tentava se aproximar devagar, tinha interesse, queria decifrá-la. Mas ela, sempre fugidia logo baixava os olhos e falava baixo, mas sério. E ele pensava: "Ela nunca olhará para mim diferente". E assim ficou durante todos os anos que os dois se encontravam diariamente. Ninguém nunca saberia, e nada nunca iria acontecer. Uma história terminada antes do começo.
Simplesmente porque ela tinha medo da felicidade. Tanto medo que se esquivava dela, a tal ponto, que nem sabia se a havia possuído um dia. Se por acidente, em um breve instante que fosse, a felicidade a tomasse pela mão, dava logo um jeito de descobrir-se triste ou solitária (ou ambos!). Se a felicidade lhe batesse a porta, diria ela: "Xô, xô não te quero aqui, vá atormentar outro."
Prefiria ela permanecer sem nunca provar uma gota desse doce néctar, do que tê-la por um breve tempo, depois perdê-la e se descobrir mais triste e vazia do que antes. Ah, aquele vazio que tinha dentro de si... Como se tivessem entrado e lhe roubado tudo, até a alma. Um vazio cada vez maior que a consumia de dentro para fora. Mas pensava que quenado já corriqueira, a solidão não dói, mas uma vez que se perde o costume, ela volta ainda pior! Como ferida antiga que sangra, machucado sobre machucado. Assim como a frase: "A dor acostumada não se sente...".
E toda vez que aquele homem lindo, de sorriso perfeito se aproximava ela se afastava repetindo sempre consigo: "A dor acostumada não se sente".
Ele me pegou pelo braço, me puxou bem para perto. Olhou em meus olhos, como quem lê lamas. Ah esse olhar sempre me domina, derruba todas as barreiras, me pega por inteira, decifra os sonhos!




















